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Altice Portugal pode ser a próxima venda de Patrick Drahi

📅 29/04/2026 ✍️ Pedro Silva ⏱️ 4 min de leitura

Numa situação complexa, Patrick Drahi luta pela sobrevivência do grupo. A venda de ativos parece ser a única solução, e a Altice Portugal posiciona-se como um dos ativos que mais podem trazer liquidez imediata, num cenário de alienação.

Herdeira da antiga PT, a MEO afirma-se hoje como a maior operadora de telecomunicações em Portugal. Com liderança consistente nas quotas de mercado, um projeto financeiramente sustentável e controlo sobre infraestruturas críticas — como postes e condutas —, a empresa opera numa posição confortável dentro do panorama nacional.

Em contraste, a Altice Internacional, grupo que detém a MEO, atravessa um dos momentos mais desafiantes da sua história. Durante décadas, a estratégia de crescimento assentou fortemente no recurso a endividamento para financiar expansão em múltiplos mercados, esperando que os retornos permitissem consolidar a dívida e garantir sustentabilidade. No entanto, com uma dívida que chegou a ultrapassar os 60 mil milhões de euros, o aumento das taxas de juro expôs fragilidades estruturais, empurrando o grupo para uma situação delicada. Perante este cenário, Patrick Drahi assumiu um papel mais interventivo, avançando com uma reestruturação profunda.

Uma das decisões mais relevantes passa pela venda da Altice France por 20,35 mil milhões de euros a um consórcio formado pelas operadoras Bouygues, Free (Iliad) e Orange. Embora o negócio não inclua a totalidade dos ativos, representa um encaixe financeiro significativo, essencial para reduzir o peso da dívida — que, só na Altice France, ultrapassava os 16 mil milhões de euros em setembro de 2025.

A distribuição do negócio está estruturada da seguinte forma: 42% para a Bouygues, 31% para a Free-Iliad e 27% para a Orange. Este modelo elimina um operador no mercado francês, mas reforça os restantes, evitando, em teoria, uma operação de consolidação clássica que exigiria medidas regulatórias mais exigentes para salvaguardar a concorrência.

Segundo informações divulgadas pelo consórcio, os ativos serão repartidos estrategicamente: o segmento empresarial ficará sob controlo da Bouygues; o segmento de consumo será dividido entre os três operadores; as infraestruturas e o espectro serão partilhados; e a rede móvel em zonas de baixa densidade ficará exclusivamente com a Bouygues.

Porque é que isto importa para Portugal?

A relevância deste movimento para Portugal é evidente. A MEO é um ativo altamente lucrativo, e não é segredo que Patrick Drahi já tentou alienar a operação portuguesa. No entanto, a ausência de propostas que correspondessem às expectativas financeiras do grupo impediu qualquer concretização até ao momento.

Ainda assim, uma eventual venda da MEO teria um impacto profundo no mercado nacional. Atualmente, o setor conta com quatro principais operadores — MEO, NOS, Vodafone e DIGI — que disputam um universo de cerca de 10 milhões de consumidores.

Uma solução semelhante à francesa, com repartição de ativos entre operadores existentes, poderia teoricamente permitir a absorção da MEO pelos restantes players. No entanto, as relações complexas entre incumbentes e a nova entrante (DIGI) tornam este cenário pouco provável no curto prazo.

Outra hipótese passaria pela entrada de um novo gigante internacional no mercado português, através da aquisição direta da MEO. A espanhola Telefónica é frequentemente apontada como potencial interessada, mas o seu foco atual em mercados como Espanha, Brasil e Alemanha levanta dúvidas sobre o interesse imediato num mercado pequeno e já maduro como o português.

Conclusão

Independentemente do caminho escolhido, é claro que a MEO representa um ativo estratégico crucial para a Altice, sobretudo após a alienação de outras operações relevantes. O setor das telecomunicações, altamente intensivo em capital, tende naturalmente para processos de consolidação, como forma de garantir escala e competitividade face a gigantes globais, nomeadamente dos mercados asiático e norte-americano.

Entretanto, a MEO continua a consolidar a sua posição. A Altice Portugal foi recentemente classificada como subsidiária “sem restrições”, deixando de estar sujeita a determinadas limitações associadas a contratos de crédito. Esta alteração permite à Altice Internacional recorrer à subsidiária para financiamento, ao mesmo tempo que a afasta da esfera direta dos credores — uma decisão estratégica, mas não isenta de risco.

Paralelamente, a empresa está a ajustar a sua estrutura interna. Com um programa de rescisões em curso, que poderá levar à saída de mais de mil trabalhadores entre 2025 e 2026, a MEO procura adaptar-se aos desafios futuros, aumentando a eficiência operacional e reforçando a sua competitividade num mercado em transformação.